segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Doutora Fedúncia

vou escrever este poema com o que restar da culpa, 
das várias culpas que vamos deixando amadurecer junto à carne até que brotem raízes de luz 
na escuridão que todos temos atrás dos olhos.
este é um poema responsável
sabe estar,
sabe mais do que
a imaturidade dos títulos porque a doutora sabe que
os nomes de código que a mulher da limpeza nos oferece num ato de generosidade
são as alcunhas miseráveis
que melhor nos definem,
somos nomes de código que nunca saberemos
em bocas de consistência aleatória.
aquilo que nos chamam,
aquilo que os outros secretamente nos chamam
isso é que devia figurar na lápide.



Sara F. Costa

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Referências

Que haver de falar agora?
um serial killer
à beira de uma execução virtual -
a frase original
em que lhe pediam um último pensamento no facebook;
a vida de trás para a frente,
resvalando uma morte encarneirada 
cheia da recusa de uma pérola a um porco.

Que haver de falar agora?
da mulher obstinadamente retalhada
quatro tentativas de suicídio e uma rosa no chão;
ou Paris no centro do Apocalipse:
milhares de Picassos reproduzidos em massa
adornando lares de dealers Napoleónicos
e prostíbulos de poetisas dedicados
a enternecer grotescos homens em miséria.

Que haver de falar agora?
agora que se acabou a infância
e é banal o medo, o escuro, o próprio pensamento
acerca do tempo atrapalhado pela cronologia
do que se finge, mas é sincero e discorda
do que se agride e é amor quase sempre.

"Onde nasce um nada cresce um pouco de tudo",
dizia o sentido obrigatório da existência;
uma teima muda num pranto com mais de duas décadas:
figuras mitológicas, pianos envelhecidos, Rockstars,
os anos 90 dentro de um globo de cristal:
flocos de neve caindo dentro da alma - e a alma
como se fosse um brinquedo pousado ao abandono.

Que haver de falar agora?

sábado, 1 de outubro de 2016

Guitarra (ou Alma) Portuguesa

Do som que nos apregoa
E nos dá ou tira a vida
Tocam as cordas do coração
E amarram a respiração à batida.

Que força tem cá dentro!
Só eu me rendo assim?
Só o meu silencio, benzido por Odin,
Te revela a obscura certeza do pranto.

E neste gesto sem fim
Me sugas para o inconsciente
Nesse colectivo de memórias perdidas
Nesse murmúrio rompante de desejos...

E eu continuo aqui
De lábios semi abertos
Feito entreposto de vidas futuras
Ou de passagens, por outros, pilhadas.

Se ao menos não houvesse o tempo
Em que o teu soar fosse verdadeiro...

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Euphoria

O relógio sem hora aponta o homem da manhã
escapo do tempo por vir - descomedida
da semente inventada para o vácuo:
há de nos minguar a memória ideal,
o principio adulterado de todas as quimeras finitas.

[Jamais seremos o sonho construído no lado mais frio
nem o nome longínquo adormecido na cama alheia]

Finjo a tua onírica balada
de olhos fechados contra a parede
temendo dormir um segundo mais
da minha inequívoca insónia milenar;

[Jamais nos pareceremos tanto com o final do Verão
nem tão pouco com a urgência quente de outra ilusão]

e o meu sorriso é uma cicatriz mentindo
as confidências dessas graves madrugadas
onde nunca seremos tão estranhos como amanhã
ou tanto da lembrança infante resgatada numa canção.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A Rã

Uma rã salta entre o habitat terreno e aquático
sem saber do lugar a que possa pertencer,
chamam-lhe a indecisa vida que leva - alguém
num mergulho repentino - ninguém
no silêncio da enseada.

 Vejo-a estática, em porcelana adornando o jardim
 finalmente mágica da indefinição dos ciganos

Uma medonha imobilidade decorativa dos pequenos lares,
das rãs pintadas de verde-relva
como se fossem natureza finalmente domesticada:
a rã inquieta eterna dentro do peito.

A esperança de encontrar a mão artesã
capaz de moldar a cardíaca irregular,
torná-la efectiva obra humana
repousando ilustrada paz doméstica.





quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Crazy in Love


Eu sei, baby, acerca de todas as tuas pinturas
artes que tomaste como tuas e minhas - foi outra
quantas lágrimas derramadas por ti enquanto dizia
"sou teu", agora importa-me se terás voltado atrás
da música ouvida,o tempo parado no lugar de alguém
um desleixo bravo no corpo de outra mulher
mais a infelicidade de trocar um nome pelo outro;
confundirás as voltas das divisões finalmente arrumadas
agora sem o enleio do caos que era como ninho
de orfãos desmedidos correndo e destruindo:
para nós, felizes brincadeiras de Romeu e Julieta
carinhos de ir à rua pela madrugada confortar-te o vazio
trazer-te mais pássaros feridos - com quem comiamos
bebendo da saliva um do outro, alimentando infetamente
o abandono de todas as produções com que te quis
e todas as paixões físicas que te eram dedicadas:
a nenhuma te entreguei com tanto amor - a ninguém
te quis cheia da vida latejando, agora sobre escombros,
um assombroso silêncio de Chernobyl entre nós.